Isabel Löfgren | Patricia Gouvêa | Artistas

Ser mãe é algo que rasga a pele e inscreve cicatrizes profundas. É habitar a sua própria história e ao mesmo tempo viver fora de si.

Uma das mais dolorosas histórias da humanidade é a história das “mães pretas,” as amas de leite que a escravidão gerou por necessidade do alimento primordial – mulheres escravizadas tornadas em puro leite negro.

Nas imagens de amas de leite dos arquivos visuais sobre a escravidão no Brasil existe um lapso que não é só de tempo. Existe uma fenda de sangue vermelho que é da ordem da violência extrema. Para cada afeto consentido entre a ama e sua pequena “filha” branca houve uma bebê negra arrancada dos braços maternos, depositada na roda dos expostos ou entregue ao azar para morrer. Aquelas mais afortunadas puderam talvez contar com o colo da mãe antes de serem lançadas ao mercado como mais um par prematuro de seios lactantes. Aquelas já nascidas em “ventre livre” puderam almejar quiçá uma vida em liberdade, ao menos por decreto – sabendo do poder dos decretos que ainda não conferem soberania completa da mulher brasileira em relação a seu corpo.

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Mãe Preta se inicia ao sermos convidadas para elaborar uma nova obra conjunta para uma galeria no Rio de Janeiro em 2015. Na porta da própria galeria nos deparamos com uma imagem histórica que coincidiu com o contexto do pensamento feminista contemporâneo, na esfera pública, e com o enfrentamento da cidade do Rio de Janeiro com seu passado de maior porto escravo do mundo por conta das obras de reurbanização olímpica. E, acima de tudo, com a memorialização dos marcos urbanos da escravidão até então soterrados pela modernidade.

A imagem era uma cópia de uma mulher negra carregando seu filho à moda africana, fragmento da obra Negras do Rio de Janeiro de Johann Moritz Rugendas, que nos inspirou a criar uma versão contemporânea da mesma composição. Este trabalho deu início a uma pesquisa sobre a complexa relação entre a maternidade, a memória da escravidão e a busca pela lugar da luta da mulher negra na história da sociedade brasileira.

Posteriormente, foi através de um convite para expor no Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, memorial onde outrora existira o Cemitério dos Pretos Novos, na Gamboa, Rio de Janeiro, que o projeto Mãe Preta se ampliou e foi apresentado em sua primeira versão durante as Olimpíadas em 2016. No mesmo local onde está a instituição, foram enterrados, à flor da terra, milhares de africanos escravizados que morreram logo após o desembarque.

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Na pesquisa de imagens de amas de leite, destacam-se os retratos urbanos e os retratos de álbum de família já normalizados dentro do imaginário da sociedade. Os jornais da época anunciam o leite negro como mais uma mercadoria dentre tantos outros víveres necessários à sobrevivência em um tempo no qual o país era totalmente movido pela energia de corpos negros.

Em busca de uma imagem incomum que revelasse os dilemas da ama de leite e destacasse sua identidade singular, encontramos a imagem de uma placa de negativo deteriorado de Marc Ferrez. A imagem vermelha e líquida com a silhueta de uma figura feminina vista em Modos de Revelar provou ser o avesso de uma das imagens mais famosas de Ferrez e revela uma nova visualidade para esta mãe, negra, jovem, anônima, ocupada e retratada com seu filho em encaixe singular.

Nas centenas de imagens de mulheres escravizadas que seguram seus bebês amarrados em panos às costas nas lavouras ou nas ruas das cidades brasileiras, existe a tentativa de fazer vingar aquele fruto feito do amor com um parceiro de vida na senzala ou do estupro de seus senhores. São sempre detalhes sutis que na série Modos de Olhar tornamos explícitos em imagens que, de tão vistas não são mais enxergadas. Como desabituar o olhar para assim dar lugar a outras histórias?

O problema, como nos ensina Susan Sontag, não é enxergar o passado através de imagens, mas sim o fato de nos lembrarmos apenas das imagens. Elas nos chocam e assombram, mas seriam elas o suficiente para um entendimento mais pleno da história?

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Como podemos revisitar as imagens destas mulheres na contemporaneidade? O que um outro olhar sobre os arquivos da escravidão pode trazer de reflexão sobre a formação da sociedade brasileira através do recorte das amas de leite do século XIX? De que maneira as vozes das mães negras de hoje podem ser ecoadas e amplificadas através da arte?

A perversidade do Brasil é que a ignorância sobre a história da escravidão não se dá pela falta de imagens, posto que aqui há o arquivo visual mais rico do mundo sobre o tema. A brutalidade reside no fato de que, ao invés de trazer maior consciência à monstruosidade do sistema escravagista, o olhar habitual sobre estas imagens reproduz a cegueira coletiva que nos impede de enxergar a nós mesmas.

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Talvez a solidariedade na fala e na escuta, além do olhar, possa mudar o estado das coisas. A começar por uma outra ordem que já está fortemente em curso na academia, nos palcos, nos blogs, nas escolas, nos muros da cidade e nas páginas ainda em branco em que a mulher negra escreve a própria vivência como forma de criar o seu lugar no mundo, fazendo de sua história particular uma revolução.

Na obra em video Modos de Fala e de Escuta, sete mães negras contemporâneas relatam suas vivência de maternidade, ancestralidade e lugar no mundo através de depoimentos. Em Modos de Navegar, um fragmento do poema de Conceição Evaristo entrelaça as águas que unem a América e África, e fazem do exílio uma busca por uma memória ancestral. A coleção de retratos de heroínas negras é uma tentativa de inscrever na história do país as vidas de mulheres negras que simbolizam atos de resistência.

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Há momentos, no entanto, em que a escrita, a fala, a arte e as ideias não dão conta do fato de que, como nos lembra a pensadora feminista negra norte-americana bell hooks, antes das palavras, há a dor. A dor da fome, do cansaço, do descaso, da desumanização, dos maus tratos, da perda, do isolamento, da dispersão e do exílio; a dor física, mental e espiritual, além de tantas outras dores negras que pulsam ainda, vermelhas. Para uma consciência plena do passado além da imagem, ainda faltam espaços para que a memória dessa dor possa ser sentida.

Isabel Löfgren & Patricia Gouvêa

1. A roda dos expostos ou roda dos enjeitados consistia num mecanismo utilizado para abandonar (expor ou enjeitar na linguagem da época) recém-nascidos que ficavam ao cuidado de instituições de caridade.O mecanismo, em forma de tambor ou portinhola giratória, embutido numa parede, era construído de tal forma que aquele que expunha a criança não era visto por aquele que a recebia.

2. Susan Sontag, Regarding the Pain of Others, 2003.

3. bell hooks, Talking Back: thinking feminist, thinking black, 1989.

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