O historiador Marcos Hill menciona o projeto Mãe Preta em entrevista concedida a portal CEERT. Abaixo a entrevista onde o projeto é mencionado:

Marcos Hill investiga as influências subjacentes ao modernismo
Autor: Márcia Maria Cruz Data da postagem: 17:30 10/07/2017

O debate sobre a representação da mulher negra desafia mentes e corações na atualidade. Com o propósito de entender a construção dessa imagem no campo das artes plásticas, o professor e artista Marcos Hill retoma o modernismo brasileiro a partir das obras Tropical (1917), de Anita Malfatti, e A negra (1923), de Tarsila do Amaral. No livro “Mulatas” e negras pintadas por brancas – Questões de etnia e gênero presentes na pintura modernista brasileira (Editora C/Arte), o historiador da arte conduz recorte arqueológico acerca da imagem das mulheres negras, em especial como a representação delas no modernismo brasileiro dialoga com imagens que a precedem. O trabalho fornece insumos para a compreensão de estereótipos visuais que se constroem sobre as mulheres negras desde a escravidão e que se perpetuam nos dias de hoje.

Na contramão de alguns estudos sobre a arte modernista produzida no Brasil, Hill se coloca de maneira mais crítica. Além das pinturas de Anita e Tarsila, ele reúne um conjunto de imagens (pinturas e retratos) elaboradas por artistas desde o século 17 que retratam a figura feminina, em especial a mulher negra e mestiça. As pinturas de Anita e Tarsila “indicam vontade de reparação de uma sociedade com fortes marcas da escravidão”. No entanto, o professor demonstra que as obras não reverberam problematização das sequelas econômicas e sociais que afetam a população negra que foi escravizada.

ANÁLISE O livro está dividido em duas partes. Na primeira, Hill se dedica à análise da pintura Tropical e propõe uma discussão acerca das referências imagéticas com as quais a obra dialoga. Nessa arqueologia da imagem, Hill retoma, de maneira crítica, as fotografias etnográficas, que eram muito usadas no século 19 para retratar os negros escravizados tanto como uma forma de catalogá-los como se objeto fossem e também inseri-los em cenas do cotidiano quase como paisagens. O pesquisador demonstra como a emergência da linguagem fotográfica se “contamina” pela pintura e vice-versa, no que se refere a enquadramentos, texturas e luminosidades.

Na segunda parte, o foco se dirige ao quadro A negra. Hill investiga a trajetória da imagem, bem como as características que a compõem. É interessante a maneira como o pesquisador resgata o contexto cultural brasileiro em que emerge o modernismo. O movimento do qual Tarsila e Anita foram expoentes buscava uma identidade brasileira ao dar visibilidade ao povo, representado de forma metonímica pela mulher mestiça e negra nas duas pinturas. Hill discute como Tarsila se influenciou pelo movimento cubista, quando manteve, em Paris, contato com mestres da pintura como André Lhote (1885-1962), Fernand Léger (1881-1955) e Albert Gleizes (1881-1953).

Nesse percurso arqueológico, o pesquisador dedica parte da obra para refletir sobre de que maneira o afeto atravessa a relação entre brancos e negros no Brasil. Ganha centralidade, na análise, a figura das mães-negras – que também são objeto da investigação das artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa na exposição Mãe preta, em cartaz no Palácio das Artes. O pesquisador enfatiza que se trata de terreno complexo. Nessas relações, pontua, estão imbricados recalques, afetos, traumas, violências, ambições, empatias, injustiças e incompreensões.

“Mulatas” e negras pintadas por brancas – Questões de etnia e gênero presentes na pintura modernista brasileira
Autor: Marcos Hill
Editora: C/Arte (272 páginas)
Preço sugerido: R$ 45

Três perguntas para…

MARCOS HILL, artista e professor
Você argumenta que uma das motivações para o livro foi a “defasagem entre a apologia do discurso cultural modernista e a condição social de afrodescendentes até hoje mantidos na precariedade”. Na sua percepção, as ações de artistas negros – no universo pop contemporâneo, por exemplo, como a cantora Karol Conka – têm contribuído para mudar o estatuto da imagem da mulher negra no Brasil?
Com certeza. E não apenas o nome de Karol Conka, mas de muitas outras como Amanda NegraSim, MC Carol, Pamelloza, Stefanie MC, Dory de Oliveira e Preta Rara, sem nenhuma pretensão de esgotar a lista. Todas tendo como uma potente inspiração a nossa venerada Elza Soares. O processo de mudança está em curso. Isto é evidente. Mas demandará um tempo incalculável no momento, considerando que há bases históricas machistas e racistas ainda muito consolidadas na sociedade brasileira. Sinto que a luta apenas começou e será necessária a sucessão de gerações combativas, não apenas de mulheres e de homens negros, mas igualmente de todas as minorias marginalizadas pela normatividade imposta autoritariamente por segmentos heterossexuais sedentos de poder. Isto para começarmos a reconhecer mudanças mais definitivas.

Ao longo de todo o livro, você usa a palavra “mulata” para evidenciar a representação da mestiçagem e demonstra como esse grupo foi apresentado de forma romantizada por artistas modernistas. Há um movimento por parte de segmentos do movimento negro que questiona o próprio termo. Ao usar as aspas para evidenciar o termo, você aponta esse questionamento?
As aspas na palavra “mulata” revelam o meu respeito e o meu reconhecimento da necessidade de se rever todo e qualquer termo que, nascido no contexto escravocrata, tenha introduzido sentidos pejorativos nos discursos sobre a mestiçagem e suas manifestações culturais no âmbito social brasileiro. Por outro lado, acho importante que termos como “mulata”, contextualizados historicamente, sirvam como motivação para estudos e análises que contribuam para a ampliação da consciência sobre a complexidade que caracteriza a própria formação dessa nossa sociedade. Neste sentido, penso que tais termos não deveriam ser riscados do dicionário, mas tratados como testemunhos históricos desse processo de formação, podendo servir como chaves de processos de desconstrução dos inúmeros preconceitos ainda vigentes.

Destaca algum movimento artístico ou artista brasileiro contemporâneo que siga nessa direção de desconstrução proposta por você?
O primeiro nome que me vem à mente é o da paulista Rosana Paulino. Como seu próprio site destaca, sua produção “está ligada a questões sociais, étnicas e de gênero. Seus trabalhos têm como foco principal a posição da mulher negra na sociedade brasileira e os diversos tipos de violência sofridos por esta população decorrente do racismo e das marcas deixadas pela escravidão”. Outra boa referência é Angélica Dass, fotógrafa brasileira que “retrata em suas obras a exploração da busca por identidade — como é possível ver no trabalho Humanae, onde cria uma escala de cores Pantone a partir de pessoas de diferentes idades, gêneros, formas”. Há ainda o caso curioso de duas artistas cariocas que, sendo brancas, criaram Mãe preta, exposição resultante de pesquisa que busca desvelar a importância da mulher negra para a formação social brasileira, ressignificando arquivos do período da escravidão para contar uma outra versão da história, na qual as negras escravizadas são protagonistas. A exposição está em cartaz na Galeria Arlinda Corrêa, no Palácio das Artes, até o dia 13 de agosto.”

Link para a matéria

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *