Modos de Habitar

Modos de Habitar
Fotomontagem com imagens de August Stahl, Marc Ferrez, Georges Leuzinger.
120x75cm
2016

O mar, na cosmologia Bantu, também conhecido como Kalunga, era considerado o local dos ancestrais. De fato, um dos mitos transmitidos através das gerações descendentes dos escravizados, foi que, quando embarcaram nos navios na África, pensava-se que iriam encontrar os antepassados do outro lado do mar. 

Nesta série usamos fotografias da região portuária do Rio e imagens de pedras na Baía de Guanabara no século 19, a paisagem vista pelos milhares de escravizados assim que chegavam ao porto. Uma imagem de uma mulher negra, grávida paira sobre a paisagem de chegada, ela carregando um filho que ele também flutua dentro do corpo dela. Ela simboliza a água dos ancestrais simbolizado pelo líquido amniótico em que seu filho flutua, dentro de sua barriga gestante e seios já fartos de leite. A figura paira sobre a paisagem do porto do rio de janeiro e suas águas como vistas no século 19. 

O cemitério dos Pretos Novos, onde este trabalho foi exposto pela primeira vez, era localizado muito próximo ao porto, e, olhando para mapas antigos da cidade do Rio de Janeiro, a apenas cem metros de uma praia agora aterrado. Do porto eram levados os corpos daqueles que não resistiram a travessia da “Kalunga” para o cemitério de indigentes. A parte triste é que como muitos dos corpos neste cemitério de escravos nunca receberam rituais de enterro apropriados á sua religião de origem, suas almas são consideradas a flutuar até que possam reunir-se com seus antepassados. O cemitério é considerado o ponto mais próximo da Africa em solo brasileiro por ali conter corpos de africanos que sendo recém-chegados não chegaram a conhecer a vida em cativeiro.